No final dos anos 70, o príncipe do pop era um ícone adolescente prestes a desaparecer. Mas foi aí que ele descobriu como fazer o mundo dançar
por Rob Sheffield
O maior sucesso dos Jacksons em 1979, "Shake Your Body (Down to the Ground)", começa com um tremor nos pratos, um piano grave e o baixo deslizando de um alto-falante para o outro. Tito Jackson experimenta sequências em staccato na guitarra. E então Michael Jackson solta os primeiros gritos e suspiros de sua voz adulta, nova em folha. Está vendo aquela garota ali? Michael não consegue dizer se ela repara nele, se ela o reconhece, se ela até mesmo se lembra de que ele fazia parte de um grupo infantil chamado Jackson 5. Tudo o que ele sabe é que precisa chegar perto, então ele desliza até ela na pista de dança com alguns dos melhores versos iniciais da música disco em todos os tempos: "I don't know what's gonna happen to you, baby, but I do! Know! That! I! Love ya!" [Eu não sei o que vai acontecer com você, querida, mas eu sei/ que / eu / te amo!]
Os anos disco foram o único período em que Michael Jackson teve relativa tranquilidade - pela última vez em sua vida, ele era apenas mais um famoso. Qualquer que fosse o critério, ele estava levando uma vida exuberante, em uma fantasia hollywoodiana: fazendo amizade com estrelas como Liza Minnelli, representando o Espantalho em O Mágico Inesquecível, com Diana Ross, saindo com Tatum O'Neal, dançando no Studio 54. Era um menino estranhamente inocente na época da luxúria tipo Boogie Nights - Prazer sem Limites [filme de 1997], intocado por se sexo ou drogas, apesar da complacência maníaca em torno dele, uma testemunha de Jeová perdida no templo do prazer. Seu zoológico particular cresceu da mesma forma que sua coleção de amigos famosos; ele provavelmente era o único virgem na agenda de Freddie Mercury. Todos gostavam de ter aquele garoto por perto - mas ninguém tinha como saber que aquela fase era só o aquecimeto.
Perto de 1973, os sucessos secaram para o Jackson 5, e os garotos foram dados como acabados. Quem quer o chiclete de ontem? O sucesso no retorno, "Dancing Machine" - que chegou ao segundo lugar em 1974 -, deve ter parecido pura sorte para a velha guarda da Motown, mas provou ser profético. O som disco era novo em 1974, e "Dancing Machine" apresentou ao mundo o estilo robô, que os Jacksons levaram ao circuito de talk-shows da TV, dançando-o com Cher e no The Merv Griffi n Show.
Os Jacksons trocaram a Motown pela CBS Records em 1975, deixando para trás o "5", pois Berry Gordy afirmou que o nome era propriedade dele. Os recém renomeados Jacksons também deixaram para trás Jermaine, que tinha se casado com a filha de Gordy e continuara na Motown para começar sua carreira solo. Com "Dancing Machine" como estratégia de fuga, parecia que os Jacksons estavam se preparando para se tornar um fenômeno familiar pop bem fofinho, como The Sylvers, DeFranco Family ou Captain and Tennille. Eles foram ao The Carol Burnett Show para apresentar seu novo - mas já qualificado - integrante: Randy, o caçula dos irmãos Jackson e um talento musical florescente.
Eles também tiveram um par de fracassos com Gamble e Huff, produtores de soul da Filadélfia, que escreveram canções para os rapazes e só permitiram que Michael compusesse duas músicas por álbum. O álbum The Jacksons tem alguns bons momentos - o sucesso "Enjoy Yourself", que chegou ao Top 10; o funkrock "Think Happy", com sua guitarra pré-"Beat It"; estreia de Michael na composição, "Blues Away". dando aos fãs uma dica de quem eram aqueles caras. A pressão para salvar o império da família estava esmagando Michael, agora um adolescente alto, desajeitado e mudando de voz. Alguém que fosse à mansão dos Jackson pela primeira vez perguntaria próprio se sabia onde estava o "pequeno e adorável Michael". Os irmãos Jackson tiveram um programa de variedades na rede de TV CBS, mas ele durou pouco. No início de 1977, Michael conversou Andy Warhol para a revista Interview. "Ele está bem alto agora, mas tem uma voz realmente aguda", escreveu Warhol em seu diário. "Ele não sabia nada a meu respeito - achou que eu fosse poeta ou coisa parecida."
O astral do álbum é ingenuamente alto. A contracapa tem a pintura de um pavão, com um poema escrito por Michael e Jackie: "Of all the bird family, the peacock is the only bird that integrates all colors into one, and displays this radio of fi re only when in love. We, like the peacock, try to integrate all races into one through the love of music" [De toda a família das aves, o pavão é o único pássaro que combina todas as cores em uma, e só exibe esse raio de fogo quando ama. Nós, como o pavão, tentamos unir todas as raças em uma por meio do amor à música].
Depois de Thriller, a família, naturalmente, voltou a entrar em contato. Em 1984, qualquer pedaço de plástico com um pouco da magia de Michael Jackson era sucesso garantido: Jermaine levou Michael para cantar em "Tell Me I'm Not Dreamin", a irmã Rebbie emplacou um sucesso chamado "Centipede", e Kennedy William Gordy, velho amigo da família, mais conhecido como Rockwell, contou com a estrela de Michael na brincadeira "Somebody's Watching Me". Mas os fãs se indignaram com a turnê e com o álbum Victory assim que eles foram anunciados - parecia que Michael estava sendo forçado a participar de um projeto familiar e que os irmãos estavam atrapalhando a atuação dele. Dava para ver a insolência deles no onipresente comercial da Pepsi: os outros Jacksons achavam que eram tão bons quanto Michael. Victory acabou sendo uma enorme bagunça, motivo de chacota desde o dia do lançamento. Além do alegre dueto com Mick Jagger, "State of Shock", Michael mal aparecia no disco. Ele também cantou com Jermaine em "Torture", de Jackie, e contribuiu com a descartável "Be Not Always". Michael chegou a trabalhar com Freddie Mercury, do Queen, em faixas para Victory e há uma versão demo em que eles cantam "State of Shock" juntos.
Os Jacksons não tocaram músicas de Victory em sua badaladíssima turnê, mas viraram manchete pelos preços estratosféricos dos ingressos (US$ 30!), e todo o projeto virou um símbolo da arrogância dos famosos. O pior é que a única celebridade do grupo não era arrogante o bastante para dizer não. Victory representou o fim de linha para os Jacksons. O único outro álbum que fizeram foi o ignorado 2300 Jackson Street, de 1989. Destiny e Triumph foram ofuscados pelo rolo compressor solo, e enterraram tesouros que a maioria dos fãs de Michael nunca ouviu. Sob vários aspectos, representavam o som de Michael lutando para se libertar do passado. Podia-se ouvir em sua voz que ele sabia o que era se sentir rejeitado e abandonado pelo mundo da música. Podia-se ouvir, também, que ele estava determinado a fazer que aquilo nunca mais acontecesse.



Fonte: Revista Rolling Stone
Lindas fotos, adorei!!! :)
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